A Educação Infantil e a Televisão

PorDaniela Rodrigues de Sousa

Grande parte do conhecimento infantil é adquirido pela mídia eletrônica: computadores, vídeo-games, mas, sem dúvida, a televisão é o meio mais presente na vida familiar contemporânea.

Muitos são os questionamentos em relação a ela: "Será que a TV é mesmo prejudicial?", "Será que meu filho vai se tornar uma pessoa passiva e sem criatividade por assistir TV durante muitas horas por dia?", "A violência e as cenas de sexo poderão influenciar no comportamento do meu filho?", "Devo censurar o que meu filho vê na TV?"

A televisão é um professor poderoso e tem potenciais efeitos positivos que não podemos deixar de mencionar:

  1. Habilidades cognitivas: a TV pode ser eficaz no desenvolvimento de atividades de leitura, vocabulário, resolução de problemas e criatividade. Com ela a criança vê, aprende e aprimora conhecimentos com uma velocidade muito maior;
  2. Conteúdo acadêmico: aumenta a visibilidade de diversas áreas de conhecimento (história, música, ciência, arte, novas tecnologias, antropologia, literatura, etc.);
  3. Comportamento pró-social: estimula persistência na realização de tarefas, empatia, solidariedade, cooperação... (Campanha de educação para o trânsito, campanha pela preservação do livro didático, movimento em prol da natureza e do meio ambiente, etc.);
  4. Nutrição e saúde: promoção de hábitos positivos de saúde (Campanha anti-drogas e anti-tabagismo, campanha de prevenção de doenças como AIDS, dengue, febre amarela, etc.);
  5. Questões sociais e políticas: informações sobre acontecimentos locais, nacionais e mundiais (não só em noticiários, como também em programas de entretenimento).

Porém, a televisão também tem muitos efeitos negativos que podem ser prejudiciais, principalmente para as crianças.

As atividades são essencialmente sedentárias, tirando o tempo de outras predominantemente físicas; a televisão promove hábitos alimentares indesejáveis e reduz contatos interpessoais significativos, pois as atividades ligadas à mídia são freqüentemente solitárias, e, finalmente, consome grande quantidade de tempo diminuindo os horários disponíveis para o sono, tarefas de casa, leitura, socialização, comunicação familiar e assim por diante.

Muitas pesquisas têm comprovado tais afirmativas; um estudo calculou que 60% da incidência de obesidade em jovens de 10 a15 anos está relacionada ao excesso da permanência em frente ao televisor; outros estudos descobriram que o aumento do uso do tabaco, do consumo de álcool e do início precoce da atividade sexual está relacionado ao conteúdo dos programas televisivos e dos anúncios (comerciais).

Um exemplo de conteúdo preocupante é o modo como a sexualidade é mostrada na televisão: as atividades sexuais apresentadas, raramente ocorre entre cônjuges, raramente se demonstra a escolha da abstinência sexual (entre adolescentes, por exemplo), com pouca freqüência alude à contracepção e, com grande freqüência, contém elementos de coerção, degradação ou exploração.

Além do que, explora demasiadamente o erotismo, um rígido padrão de beleza física e a nudez e, geralmente, não aborda de maneira correta temas relacionados às minorias, mulheres, gays e lésbicas.

O enfoque incansável sobre o consumo promove valores de compra e de propriedade. A televisão opera a formação de consumidores e não a de cidadãos que eventualmente seriam também consumidores.

A linha divisória entre o conteúdo dos programas e as mensagens comerciais é, quase sempre, obscurecida.

Todos os programas infantis têm produtos para vender e a criança, ao adquirir tais produtos, experimenta o sentimento de 'pertença' ao grupo representado pelo programa. Ou seja, a televisão impõe às crianças que consumam determinados produtos.

É bom lembrar que a TV é financiada por anunciantes que têm produtos e serviços a vender. Os produtores precisam captar a atenção do telespectador e mantê-la. Isso nem sempre é fácil.

A exposição contínua pode dessensibilizar o telespectador, fazer com que ele gradativamente perca o interesse pelo conteúdo da programação.

Os produtores tentam incitar emoções fortes nos telespectadores para obter sua atenção. E certas coisas provocam mais emoções fortes que outras.

A violência é uma delas. Ela é universalmente compreendida e valorizada. Há evidências esmagadoras de que o entretenimento violento é um fator causal na promoção de atitudes e comportamentos violentos.

Como a violência na mídia afeta o comportamento e as atitudes dos espectadores, especialmente crianças?

  1. Imitação de comportamento;
  2. Heróis violentos;
  3. Violência recompensada;
  4. Violência justificada;
  5. Dessensibilização (o aumento da visibilidade de situações violentas aumenta a tolerância, há um decréscimo na reação à violência e uma falta de solidariedade para com as vítimas);
  6. Aumento do medo (Gerbner: "síndrome do mundo cruel");
  7. Maior apetite pela violência;
  8. Violência realista;
  9. Cultura do desrespeito (David Walsh: "redefinimos a forma como devemos tratar uns aos outros").

Mas é importante ressaltar que a televisão é apenas mais uma de muitas relações que a criança estabelece no mundo em que vive. As mensagens precisam de 'ganchos' para fazerem sentido no universo infantil.

A recepção varia de pessoa para pessoa, de acordo com seu histórico familiar, emocional, social – dependendo do meio em que está inserida – de acordo com as diferentes leituras de mundo. A história de vida da criança também vai determinar o que ela filtra das mensagens televisivas, geralmente 'fica' o que faz sentido para ela.

Outra questão importante é que os programas de TV emplacam onde têm audiência. Muitas pessoas não admitem consumir (e gostar do ) 'lixo cultural'. O primeiro passo é refletir sobre o que a família assiste na televisão.

Do livro A Televisão e a Violência: o impacto sobre a criança e o adolescente retirei parte do capítulo Uso da Mídia:

Sugestões aos pais:

  1. Fique alerta para os programas que seus filhos assistem;
  2. Evite usar a televisão, vídeos ou vídeo-games como se fossem uma babá (planejar uma outra atividade para a família);
  3. Limite o uso da mídia (uma ou duas horas de boa qualidade por dia);
  4. Mantenha aparelhos de TV e vídeo-games fora do quarto de seus filhos;
  5. Desligue o televisor durante as refeições;
  6. Ligue a TV somente quando houver algo específico que você decidiu que vale a pena assistir (decida com antecedência);
  7. Não transforme a TV no ponto central da casa. Evite colocá-la no lugar mais importante;
  8. Assista o programa que seus filhos estiverem assistindo (fale e faça conexões com seus filhos enquanto assistem o programa);
  9. Tome cuidado especial ao assistir programas antes de ir dormir;
  10. Informe-se sobre os filmes que estão passando e sobre os vídeos disponíveis para venda ou aluguel;
  11. Torne-se um alfabetizado em mídia;
  12. Limite sua própria permanência em frente à televisão. Seja cuidadoso quando as crianças estiverem por perto e puderem observar seu programa;
  13. Faça-se ouvir. É necessário que insistamos numa melhor programação para nossos filhos.

Referências bibliográficas:

PACHECO, Elza Dias (org.) Televisão, Criança, Imaginário e Educação. Campinas, SP, Papirus, 1998.
A televisão e a Violência: o impacto sobre a criança e o adolescente - texto completo no site www.hcpa.ufrgs.br/psiq

Artigo original em http://escolarecriarte.com
Localizado pelo Google com as palavras chaves: "escola recriarte"
Acesso em: 26 de dezembro de 2008, 12:52

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