terça-feira, 6 de março de 2007

Os centenários de Gavião Peixoto e Nova Europa

Mivaldo Messias Ferrari

Os Núcleos Coloniais do Cambuhy que deram origem aos atuais municípios de Gavião Peixoto e de Nova Europa foram tema de minha dissertação de mestrado, apresentada na Universidade de São Paulo em 1976. Ambos os municípios comemoram neste ano o centenário de suas fundações, ocorridas em janeiro de 1907.

Como esses núcleos foram criados pelo Governo do Estado de São Paulo através da compra e doação de terras, para serem divididas em minifúndios de aproximadamente dez alqueires e vendidas a imigrantes, a fim de atraí-los e fixá-los, julguei inicialmente tratar-se de uma experiência de reforma agrária em pleno latifúndio cafeeiro. O decorrer das pesquisas mostrou que o paradoxo não se confirmaria. A idéia da divisão agrária partira dos próprios latifundiários cafezistas que detinham o poder em pleno regime coronelista, quando a produção do café, maior produto exportável do país, exigia a manutenção plena da grande propriedade.

Como explicar a iniciativa da fundação dos núcleos coloniais no início do século 20 pelo Governo do Estado, constituído, em sua maioria, por representantes da aristocracia agrária? Em linhas gerais, o objetivo era o de fixar o imigrante no período de entressafras e disponibilizá-lo para a grande lavoura durante as colheitas, diferentemente do que ocorrera com as colônias do Sul, onde o povoamento era a meta principal. Os latifundiários cafezistas tinham em mente, além de constituir os "viveiros de trabalhadores", lançar "iscas" para atrair imigrantes. Facilitava-se a aquisição de lotes rurais aos recém-chegados, não oferecendo as mesmas vantagens aos colonos residentes no País.

Assim, entre 1908 e 1911, Gavião Peixoto e Nova Europa tinham suas populações constituídas por mais de 12 nacionalidades, entre Russos, Alemães, Brasileiros, Polacos, Italianos, Austríacos, Franceses, Portugueses, Espanhóis, Suíços, Dinamarqueses, Sírios e outros.

Era uma verdadeira Babel, causando alguns entraves no desenvolvimento desses núcleos. Dificultava, por exemplo, a formação de cooperativas.

Os colonos, numa atitude bastante lógica, procuravam atenuar os problemas causados pela diferenciação cultural, acercando-se de elementos de sua origem. Os casamentos realizados nos dois núcleos no período de 1914 a 1923 aconteceram em maior número entre estrangeiros de igual nacionalidade ou entre brasileiros.

O corpo administrativo do Núcleo era composto por um diretor, um ajudante de diretor, diversos auxiliares e um médico.

Do diretor se exigia, além das funções administrativas, conhecimento de agricultura, pois devia prestar aos colonos todos os esclarecimentos, quer no preparo da terra, quer na semeadura ou plantação, cultivo ou colheita, empregando todos os esforços para o progresso da lavoura do Núcleo. Mas tal determinação nem sempre era cumprida, já que muitos diretores não possuíam suficiente conhecimento agrícola e só se entregavam às atividades burocráticas, conforme entrevistas realizadas em 1974 com os Srs. Willi Koeler, alemão de 77 anos, residente em Nova Europa desde 1909, e Alziro Sampaio, de mãe alemã e pai português, com 79 anos, residente em Gavião Peixoto desde 1910.

O primeiro informou-nos que seu pai, Albert Koeler, viera para o núcleo em 1909. Sendo sapateiro, não conhecia as noções mais elementares de agricultura, pois nunca havia visto uma espiga de milho e pensava que os grãos fossem produzidos pelo pendão da planta. Chegou mesmo ao cúmulo de plantar arroz beneficiado.

Apesar de todo o esforço governamental em fixar os recém-chegados no núcleo, assistiu-se a uma paulatina substituição desses colonos pelos já residentes no País, fato que gerou uma inversão de funções dos núcleos coloniais que, em lugar de servirem de "reserva de mão-de-obra", passam a ser ponto de atração aos colonos ligados às fazendas de café. E o colono que conseguirá um lote de terra será justamente o mais laborioso, que adquiriu grande experiência no estágio em grandes propriedades, onde conseguira, mercê de uma alta produtividade de seu trabalho, juntar com sacrifício seu pequeno pecúlio.

Apesar de não terem sido povoados nos moldes que determinaram as suas fundações, esses núcleos puderam apresentar progressos consideráveis, quando já habitados quase que exclusivamente por colonos "já residentes nos país", principalmente no aspecto econômico, pois obtiveram produtividade muito grande em relação aos demais núcleos oficiais do Estado.

Embora não correspondessem aos fins visados pelos cafeicultores, os Núcleos do Cambuhy constituíram-se em comunidades peculiares, ilhadas no latifúndio cafeeiro, sem deles dependerem, pelo menos até as datas de suas emancipações ocorridas em 1920 em Nova Europa, que passou a pertencer ao município de Ibitinga e mais tarde ao de Tabatinga, e em 1923 em Gavião Peixoto, que passou a pertencer a Araraquara.

Os antigos distritos de Nova Europa e Gavião Peixoto tornaram-se municípios, respectivamente, em 30/12/1953 e 21/05/1995. Hoje são importantes e prósperas cidades, diferenciadas de outros municípios por serem resultado, dentro da historia da imigração brasileira, de uma das tentativas, sui generis, de solução do problema de mão-de-obra na lavoura cafeeira.

Artigo original em www.tribunaimpressa.com.br
Localizado pelo Google com as palavras chaves: Nova Europa Araraquara
Acesso em: 10 de agosto de 2009, 11:27

(\\\)))