22/05/2009

Bem-vindos: japoneses que adotaram Nova Europa como pátria

Em 18 de junho de 1908, após 52 exaustivos dias de viagem, 781 imigrantes japoneses desembarcavam do navio Kasato Maru, no porto de Santos. Era o início de uma profícua integração entre dois povos absolutamente diferentes. Eles vieram em busca de riqueza e de uma vida melhor e acabaram por influenciar fortemente nossa cultura.

A grande onda migratória foi originada por acordos assinados entre os dois países. No começo do século 20, o Brasil precisava de mão-de-obra estrangeira para as lavouras de café, enquanto o Japão, passava por um período de grande crescimento populacional. A economia nipônica não conseguia gerar os empregos necessários para toda população. O acordo, então, serviu para suprir as necessidades dos dois países.

Estima-se que nos primeiros dez anos da imigração, cerca de 15 mil japoneses chegaram ao Brasil. Este número aumentou muito com o início da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918). Pesquisas indicam que entre 1918 e 1940, cerca de 160 mil pessoas deixaram o Japão para vir ao Brasil. Atualmente, a estimativa é de que haja aproximadamente 1,5 milhão de japoneses no País. Como não poderia deixar de ser, Nova Europa também recebeu famílias inteiras para trabalharem nas plantações; este foi o caso dos Yamahista, Iwase e Miasaki, apenas para citar alguns exemplos.

O começo

Os primeiros imigrantes deixaram regiões pobres do Norte e do Sul do Japão para trabalhar nas então prósperas fazendas de café do Estado de São Paulo. A promessa era de enriquecimento rápido e fácil. Apesar de a maioria ter optado por São Paulo, parte das famílias acabou indo para o Norte do Paraná e até para a Amazônia. Mas o início não foi fácil. Os japoneses tiveram que enfrentar língua, costumes, religião, clima e alimentos completamente diferentes.

Outro período difícil foi o da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). O Brasil estava ao lado dos aliados, portanto em guerra contra os Países do Eixo Alemanha, Itália e Japão. Durante os anos da guerra, foi proibida a imigração de japoneses; o então presidente Getúlio Vargas proibiu o uso da língua japonesa e suas manifestações culturais foram consideradas atitudes criminosas. Com o término da Segunda Guerra, as leis contrárias à imigração japonesa foram canceladas e o fluxo de imigrantes para o Brasil voltou a crescer. A última leva de imigrantes aportou no Brasil em 1973. (Pesquisa: Luís Fernando Laranjeira)

Um outro Japão aqui em Nova Europa

Nova Europa sempre acolheu muito bem os que vieram de fora, e no caso dos japoneses, a história não foi diferente. Até parece que, para ser novaeuropense de verdade, não basta nascer por aqui, tem de alimentar o espírito solidário primeiro e, então, tudo bem.

Se os europeus chegaram em Nova Europa bem perto de seu surgimento como cidade, os japoneses demoraram um pouco mais, mas também vieram em busca de riqueza e fartura. Assim aconteceu com os Iwase, e Shinjy Iwase, ou Paulo Iwase – o nome em português foi dado à ele por uma professora brasileira em Nova Europa – narra essa história de bravura debaixo de muita emoção e gratas recordações.

Shinjy partiu do Japão para o Brasil com seus pais quando tinha apenas seis meses de vida. Deixou para trás seu lar, brinquedos, costumes e tradições; com os pais veio desbravar um novo mundo, sem saber ao certo se haveria sucesso e a concretização de tudo que se falava de bom do Brasil.

De navio, o único meio possível de locomoção para a família Iwase, viajaram várias semanas sob condições adversas e, até, desumanas. Enfrentaram fome, frio, chuvas e o medo de não dar certo. Foram três meses de viagem; três meses de uma certa angústia por conta de não saberem o que os esperavam em solo tupiniquim.

Com os olhos marejados, tentando relembrar ao máximo a cena que ficou gravada por décadas em sua memória oriental, Shinjy relata um pouco do horror vivido naquele navio.

"Vieram muitos japoneses nesse mesmo navio da gente, muitos mesmo. A viagem era muito longa, todos sabiam disso, e ninguém podia nem imaginar em ficar doente porque não ia ter remédio. As doenças apareceram e, como eu disse, não tinha remédio para cuidar deles; meus pais me contaram anos mais tarde que, muitos japoneses ficaram doentes, e que presenciaram um corpo sendo atirado ao mar depois de não conseguir resistir aquelas doenças".

Foi no dia 25 de janeiro de 1934 que, Shinjy e sua família, chegaram ao Porto de Santos (SP), litoral de São Paulo. Objetivo traçado, destino alcançado com muito esforço e perseverança, virtudes características do povo japonês, foram em busca de trabalho e dinheiro para o sustento.

"De Santos nós partimos para Morro Agudo, interior de São Paulo, na esperança de começarmos a ganhar dinheiro", conta.

"Naquela época, diziam que, no Brasil, podia-se ganhar bastante dinheiro. No entanto, meus pais descobriram que tudo era fantasia. Eles trabalhavam muito, de sol-a-sol, e não ganhavam quase nada. Sem ganhar dinheiro e trabalhando apenas para manter a família, eles nunca conseguiram guardar recursos para retornar ao Japão", acrescenta.

De Morro Agudo, a família Iwase partiu para Araraquara na tentativa de arranjar um trabalho mais rentável, depois para algumas fazendas pertencentes à Companhia Inglesa e, por fim, para Nova Europa. Por aqui, chegaram em 1942, e logo de cara perceberam uma tranquila "vila" composta por moradores europeus e caboclos. Shinjy foi imediatamente matriculado no Grupo Escolar e, lá, descobriu outra dificuldade: o idioma.

"Eu não sabia uma palavra sequer em português", diz.

O passar dos anos serviram, não apenas para aprimorar o novo idioma, mas muito mais para fortalecer suas raízes, algo primordial na vida de um japonês. O menino cresceu, ganhou estatura, entrou para o ramo da avicultura, construiu aquela que seria conhecida como Granja Nova Ásia, numa alusão patriótica ao continente em que nascera, e formou sua própria família. Casou-se por aqui, tem dois filhos: Massao e Takeshi, sendo que este mora no Japão há muitos anos.

"Para o Japão é só volto se for para passear. Nunca pensei em ir embora de Nova Europa porque tudo que construí, consegui construir aqui", emociona-se mais uma vez.

Hoje com 76 anos, Shinjy não esconde de ninguém que sente saudades de sua terra natal, mas principalmente do filho que trabalha lá e da irmã, que nunca conheceu.

"Quando saímos do Japão, minha irmã já era moça e não quis viajar com a gente para cá. Eu nunca tive a chance de vê-la pessoalmente", reclama.

Vez ou outra, recorre aos álbuns de fotografias sentado na varanda do sítio, à 3 quilômetros da área urbana de Nova Europa. Ali, ele recorda os pais, recorda a odisséia que enfrentou com apenas seis anos de vida, e chega a conclusão de que deu certo.

"Esse é meu País, amo esse lugar do fundo do meu coração", finaliza Shinjy.

(reportagem: Ernesto Schmidt – JFC)

Artigo original em www.novaeuropaonline.com.br
Acesso em: 25 de maio de 2009, 13:21

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